Vivemos na era do cansaço extremo, da exaustão e vivemos no limiar do burnout. Ligamos a um amigo “então, como estás?… cansado, muito stress. E tu?” Acordamos cansados, arrastamo-nos entre tarefas, chegamos a casa exaustos. Mas nem sempre tivemos um dia complicado ou cheio de compromissos… Oiço muitas vezes dizerem-me “não percebo porque estou tão cansada”. E muitas vezes isto vem de pessoas que continuam a trabalhar, continuam a cuidar da família, continuam a cumprir tudo aquilo que é suposto. Pessoas funcionais, responsáveis, capazes. Pessoas que até podem olhar para o seu dia e pensar: “Mas eu hoje nem fiz nada de especial para estar assim.”
Claro que existe cansaço físico, excesso de trabalho, privação de sono, sobrecarga mental. Mas nem sempre é disso que estamos a falar. Porque há um tipo de exaustão que não aparece apenas por aquilo que fazemos, mas pela forma como o nosso sistema se organiza internamente ao longo do tempo.
Cansaço constante, sistema nervoso e estado de alerta
Há pessoas que vivem grande parte da vida em antecipação constante sem sequer perceberem isso conscientemente. Estão sempre a calcular qualquer coisa. A tentar perceber como o outro vai reagir. A monitorizar o ambiente à volta. A ajustar-se ao humor de quem entra numa sala. A tentar garantir que nada falha, que ninguém fica desagradado, que não surge conflito, crítica ou tensão. E isto não costuma aparecer de forma dramática ou evidente. Pelo contrário, muitas vezes são pessoas extremamente funcionais e adaptadas.
O problema é que o corpo não distingue assim tão bem aquilo que é um perigo real daquilo que foi aprendido como necessário para manter segurança emocional e relacional.
Se durante muito tempo uma pessoa sentiu que precisava manter-se atenta para evitar conflito, imprevisibilidade, exigência excessiva ou instabilidade emocional à sua volta, o sistema nervoso adapta-se a esse contexto. Aprende a viver com algum grau de tensão de base, mesmo que anos mais tarde a realidade já seja diferente.
Descansar nem sempre chega para recuperar energia
É por isso que algumas pessoas descansam fisicamente, mas não recuperam verdadeiramente. Conseguem parar o corpo, mas não conseguem sair do estado interno de vigilância e contenção. Sentam-se no sofá e continuam a pensar no que falta fazer. Deitam-se para dormir e continuam internamente ativas. Entram de férias e demoram dias até sentir que realmente chegaram ali.
Muitas vezes, estas pessoas também têm dificuldade em reconhecer as próprias necessidades antes do corpo começar a dar sinais mais fortes. Vão funcionando em esforço durante demasiado tempo, até começarem a aparecer sintomas mais claros: irritabilidade constante, dificuldade em dormir profundamente, sensação de saturação mental, tensão muscular, falta de energia, necessidade de isolamento, ou aquela sensação estranha de estar cansado o tempo inteiro, mas ao mesmo tempo incapaz de parar.
Na prática terapêutica, vejo frequentemente pessoas que aprenderam muito cedo que descansar demasiado podia significar perder controlo, falhar expectativas ou deixar de corresponder ao que os outros precisavam delas. Outras cresceram demasiado atentas ao ambiente emocional à volta e habituaram-se a organizar-se em função disso. O corpo acaba por incorporar essa aprendizagem e mantê-la ativa muito depois de deixar de ser necessária.
Por isso, nem sempre recuperar energia passa apenas por descansar mais. Muitas vezes implica aprender algo muito mais difícil para aquele sistema: sair gradualmente desse estado interno de vigilância permanente, perceber que já não precisa viver em antecipação constante e voltar a reconhecer segurança sem depender desse nível de controlo.
Na psicoterapia corporal trabalhamos precisamente esta ligação entre história emocional, padrões relacionais e organização do corpo. Não apenas para compreender racionalmente porque existe tanto cansaço, mas para ajudar o sistema nervoso a experimentar novas formas de regulação, presença e segurança que não dependam de estar constantemente em esforço.


